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domingo, 30 de maio de 2010

Hopper se foi



Gente, Dennis Hopper finalmente chegou no final da estrada!

Confiram a matéria, do site de Portugal: http://www.publico.pt/

É um pouco da história de Hollywood que desaparece com a morte de Dennis Hopper. Ainda hoje recordado por "Easy Rider", um dos filmes-chave da “nova Hollywood” que abanou os alicerces do sistema dos grandes estúdios, Hopper foi contudo também o fotógrafo alucinado do "Apocalypse Now" de Coppola ou, sobretudo, o vilão psicótico de "Veludo Azul", depois de ter sido actor nos anos de 1950 na televisão e em filmes como "Fúria de Viver" e "Duelo de Fogo"

Mas a verdade é que este ícone da contra-cultura psicadélica dos anos 1960 e 1970, vilão “de serviço” a êxitos como "Speed" ou "Waterworld", não tinha muito a ver com essa imagem de rebeldia. O verdadeiro Dennis Hopper estava muito mais próximo do artista nova-iorquino que interpretou em "Elegia" (2008) de Isabel Coixet, ou do seu general na série televisiva "E-Ring – Centro de Comando".

Pintor, escultor e poeta, simpatizante do Partido Republicano (para cujas campanhas eleitorais contribuiu repetidamente, embora nas últimas eleições tenha apoiado Barack Obama para Presidente), Dennis Hopper foi fotógrafo aclamado, documentando a Hollywood cujas conturbadas transformações acompanhou ao longo de quase 60 anos de carreira.

E foi também coleccionador de arte, proprietário de originais de Andy Warhol, Jasper Johns, Roy Lichtenstein ou Jean-Michel Basquiat (curiosamente, Hopper faria parte do elenco da biografia de Basquiat rodada em 1996 pelo artista Julian Schnabel).

“Lista negra” dos estúdios
Era, aliás, para uma carreira artística que Hopper, nascido em Dodge City em 1936, parecia fadado.

Mas, “mordido” no liceu pelo “bichinho” da representação, estudou no lendário Actor’s Studio, e estreou-se como actor em 1955; na televisão, alinhando em todas as grandes séries da época, e no cinema com um contrato com a Warner Bros., iniciado com um papel secundário no lendário "Fúria de Viver" (1955), de Nicholas Ray, onde se travou de amizade com James Dean. A sua guerra surda com o veterano Henry Hathaway nas rodagens de "O Homem que Não Queria Matar" (1958), contudo, pô-lo na “lista negra” dos estúdios, levando-o a regressar à fotografia como actividade principal.

O que salvou Hopper foi a contra-cultura psicadélica da Costa Oeste e o seu encontro com dois outros actores emergentes, Peter Fonda e Jack Nicholson. O resultado foi a sua estreia na realização, "Easy Rider" (1969) — road movie de um novo tipo, onde dois hippies motociclistas (Fonda e Hopper) atravessavam as paisagens míticas dos EUA e encontravam o oposto do “sonho americano”.

Influenciado por cineastas experimentais como Bruce Conners e filmado independentemente por 400 mil dólares, "Easy Rider" tornou-se num fenómeno estético e cultural gigantesco (e global, vencendo o prémio de Melhor Primeira Obra em Cannes). Juntamente com o êxito de "Bonnie and Clyde" (1967), de Arthur Penn, o filme abriu as portas à “nova Hollywood” - a geração de cineastas que, encabeçada por Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich ou William Friedkin, tomaria de assalto a “Meca do Cinema” nos anos seguintes.

Mas o desastre crítico e comercial do seu segundo filme, "The Last Movie" (1971), cuja rodagem turbulenta no Peru foi acompanhada por um prodigioso consumo de álcool e drogas, tornou-se numa antevisão do que aconteceria a essa geração de cineastas, literalmente intoxicados pelo poder.

“Queimado” em Hollywood, Hopper passou os anos 1970 a alinhar papéis de subsistência em filmes de baixo orçamento, com participações em "O Amigo Americano" (1976), de Wim Wenders, ou "Apocalypse Now" (1979), de Coppola, a mostrarem que o seu talento andava a ser subaproveitado.

“Eu sou o Frank Booth”
A verdadeira reabilitação viria depois da sua desintoxicação, quando insistiu com David Lynch para que o deixasse interpretar o psicótico Frank Booth em "Veludo Azul" (1986) — porque, segundo reza a história, Hopper teria dito a Lynch que “eu sou o Frank Booth”, numa referência velada às suas vivências extremas dos anos 1960 e 1970.

A força da sua interpretação, combinada com a nomeação nesse mesmo ano para o Oscar de melhor actor secundário no filme "A Raiva de Vencer" de David Anspaugh, ressuscitou-o para Hollywood. Permitiu-lhe regressar à realização (com "Los Angeles a Ferro e Fogo", de 1988, "Testemunha Involuntária" e "Ardente Sedução", ambos de 1990, e "Guardas Prisionais", 1994) e filmar com gente tão díspar como Alex Cox, Tony Scott, John Dahl, Abel Ferrara, Allison MacLean, Ron Howard, George A. Romero ou Wim Wenders.

A sua última prestação como actor ocorreu na comédia de Linda Yellen "The Last Film Festival", ainda inédita.

Hospitalizado de urgência em Setembro de 2009, foi diagnosticado com cancro da próstata em estado avançado, e fez a sua última aparição em público a 26 de Março último, quando da colocação da sua estrela no Hollywood Walk of Fame, o célebre “Passeio das Estrelas”.

Dennis Lee Hooper morreu em sua casa em Los Angeles na manhã de 29 de Maio de 2010, aos 74 anos de idade. Casado por cinco vezes, deixa quatro filhos e dois netos.

domingo, 23 de maio de 2010

We blew it!


Easy Rider – O símbolo do Road Movie

Em nosso primeiro encontro do Cinema Aberto foi exibido o filme Easy Rider, de 1969, dirigido por Dennis Hopper, produzido por Peter Fonda e com os dois como protagonistas.

A discussão girou em torno dos objetivos das atividades e de uma possível delimitação de características dos Road Movies enquanto estratégia de discurso cinematográfico.

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Easy Rider é fruto de uma geração que viveu o fenômeno da contracultura nos Estados Unidos. Uma geração que presenciava a Guerra do Vietnã e se pautava por elementos da cultura hippie, do movimento new age e pela busca da liberdade.

O amor livre, o uso de drogas enquanto busca por outras percepções de mundo e a música rock n´roll ditavam todo um modo de comportamento. Pela primeira vez a geração se via retratada nas telonas.

O filme Easy Rider é um exemplo bem consolidado de Road Movie pois constrói um duplo diálogo em relação ao momento em que surgiu no cinema hollywoodiano e em relação à sua temática e a forma como a sociedade lidou com ela.

Já na década de 60, os antigos produtores viviam uma grande estagnação e talvez os últimos dias da Hollywood como conheciam. Já se passara o tempo das grandes produções de estúdio, dos clássicos westerns, noirs e consagrados musicais. Surgiam nos EUA as primeiras escolas de cinema e jovens cineastas que buscavam por um meio de produzirem seus filmes e conseguirem visibilidade.

As chances não eram muitas, pois a grande maioria das produtoras estavam nas mãos dos velhos e tradicionais nomes da produção cinematográfica, pouco favoráveis a mudanças.

Paralelamente a esse movimento nos EUA, e talvez um dos principais influentes na produção que viria acontecer posteriormente, acontecia na Europa a Nouvelle Vague, um dos mais importantes movimentos da história do cinema mundial, que revolucionava o modo como cinema seria visto. Além disso, fenômenos de um cinema pós-guerra podiam ser vivenciados no norte europeu e no oriente.

A relação de amor e ódio que se estabeleceu entre cineastas americanos e a nouvelle vague foi fundamental para a produção de ambos os movimentes. A Nova Hollywood surgiu em resposta aos clássicos do movimento europeu, e ao antigo sistema hollywoodiano estabelecido nos EUA.

Alguns dos primeiros filmes da Nova Hollywood foi Bonny&Clyde (Arthur Penn, 1967), que também pode ser considerado um Road Movie, juntamente com A Primeira Noite de Um Homem (Mike Nichols, 1967). Esses filmes mudaram todo um paradigma de linguagem e narrativa estabelecido pelo cinema clássico norte-americano.

Em meio a esse contexto de contracultura e de Nova Hollywood, surge Easy Rider, um símbolo tanto de revolução no cinema, quanto em relação à sua temática e ao modo como lida com o espectador, gerando profunda identificação.

A própria história da produção do filme é um tanto conturbada. Dennis Hopper chegou no final das gravações já bem “doidão” e para terminar o filme, Fonda teve que distraí-lo para conseguir terminar a montagem do filme. Conseguir uma boa distribuição foi difícil no começo, mas com a grande aceitação do público após sua estréia, logo ganhou prêmios e se consagrou.

A ESTRADA

Jack Kerouac talvez seja o grande símbolo do gênero Road. Penso que sem a existência do seu best-seller On The Road não houvesse tanta repercussão em torno do tema. Kerouac retratou de forma magistral as grandes viagens e reflexões da vida na estrada. E foi ali que se formou uma relação de cumplicidade entre aquele que busca e a estrada.

A busca pela liberdade, a busca pela América, a busca por conhecer a si mesmo. Não importa o que é buscado, a estrada é o lugar ideal para não se achar o que se quer, mas sim para continuar sempre buscando. É o lugar nenhum, é a catarse, é o renegar dos valores tradicionais da vida nas cidades, das convenções e das regras.



Por Marina Botelho